Tumores malignos da boca

O câncer de cavidade oral representa um grave problema de saúde pública mundial, concentrando cerca de 80% dos seus casos em países em desenvolvimento e apresentando alta prevalência no Brasil, sobretudo na população masculina. O carcinoma epidermóide responde por 95% das ocorrências, tendo o tabagismo como o principal fator de risco isolado, responsável por acometer 90% dos doentes. O consumo crônico de álcool atua de forma sinérgica com o fumo, elevando o risco de desenvolvimento do tumor em até 15 vezes em indivíduos que mantêm ambos os hábitos. Adicionalmente, as infecções pelo vírus HPV (especialmente o tipo 16, cujo aumento afeta o público jovem), a exposição solar UVA (fator determinante para o câncer de lábio), a desnutrição por carência de vitamina A e a higiene oral precária fecham o quadro de riscos, contrapostos pelo efeito protetor de dietas ricas em frutas e vegetais.

Anatomicamente, a cavidade oral compreende sete sub-regiões (lábios, mucosa bucal, trígono retromolar, palato duro, língua oral, assoalho da boca e rebordos gengivais), sendo a língua e o assoalho os locais mais frequentes de desenvolvimento tumoral. A doença costuma ser inicialmente assintomática, podendo surgir de lesões pré-neoplásicas importantes, tais como a leucoplasia e a eritroplasia, ou em tecidos sadios. Em estágios avançados, manifesta-se por meio de dor, ulcerações que não cicatrizam, sangramentos, aumento de volume e disfagia (dificuldade de engolir). O diagnóstico baseia-se no exame clínico rigoroso (oroscopia e palpação) realizado por profissionais habilitados, sendo a biópsia o padrão-ouro para confirmação histopatológica, enquanto exames de imagem (como tomografia computadorizada, ressonância magnética e ultrassom) servem para avaliar o grau de invasão óssea ou muscular e mapear metástases nos linfonodos cervicais.

O tratamento é delineado conforme a localização e a extensão da lesão, sendo a presença de metástase cervical o critério prognóstico mais desfavorável, reduzindo a sobrevida em 50%. A cirurgia com margens de segurança tridimensionais constitui a principal modalidade curativa, frequentemente associada ao esvaziamento cervical (remoção de linfonodos) quando há suspeita ou confirmação de disseminação linfática. A radioterapia pode atuar de forma exclusiva em tumores pequenos e superficiais sem comprometimento ósseo ou como adjuvante pós-operatório, enquanto a quimioterapia é majoritariamente indicada para fins paliativos ou associada a casos avançados. Diante das severas sequelas funcionais e estéticas que comprometem a mastigação e a fala, torna-se indispensável o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar e a instituição de medidas de reabilitação protética e odontológica especializada para devolver a qualidade de vida ao paciente.